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Dra Celine Odontologia

Por que não dá para ignorar um siso problemático

Adiar a extração de um siso que apresenta indicação de remoção não é “economizar” um procedimento — é dar tempo para que complicações se desenvolvam. A seguir, explicamos os cinco problemas mais comuns e documentados na literatura científica.

1. Pericoronarite — infecção da gengiva ao redor do siso

A pericoronarite é a inflamação e infecção do tecido gengival que recobre parcialmente um siso semi-incluso. Ela ocorre porque a gengiva que cobre parcialmente o dente cria um espaço onde alimentos e bactérias se acumulam e são praticamente impossíveis de limpar adequadamente.

Os sintomas incluem dor intensa, inchaço, dificuldade para abrir a boca (trismo), mau hálito e, nos casos mais graves, febre e comprometimento do estado geral.

A revisão sistemática de Peñarrocha-Diago et al. (2021) classifica a pericoronarite recorrente como uma das indicações mais bem documentadas para extração de terceiros molares. Episódios repetidos indicam que o ambiente local não vai mudar sem a remoção do dente.

2. Cárie no siso e no segundo molar adjacente

Sisos mal posicionados criam retenção de alimentos e placa bacteriana em áreas que a escova e o fio dental simplesmente não alcançam. O resultado é um risco aumentado de cárie — não apenas no siso, mas também na face distal do segundo molar, que é o dente funcional logo à frente.

Dados compilados na literatura indicam que aproximadamente 15% das pessoas com sisos retidos e parcialmente erupcionados desenvolvem cárie no siso ou no segundo molar adjacente. A incidência de cárie na face distal do segundo molar varia de 1% a 19% nos diferentes estudos, com aumento proporcional à idade do paciente.

Quando o segundo molar desenvolve cárie por causa do siso, o tratamento restaurador é tecnicamente mais complexo — e, dependendo do grau de destruição, pode exigir tratamento de canal ou até mesmo a perda do dente.

3. Reabsorção radicular do dente vizinho

Conforme detalhamos em artigo dedicado a este tema, a pressão mecânica exercida por sisos impactados — especialmente em posição mesioangulada ou horizontal — pode causar a destruição progressiva da raiz do segundo molar.

Estudos com tomografia cone beam demonstram prevalência de reabsorção que pode superar 20% dos casos. O mais preocupante: o processo é indolor na maioria dos casos e só é detectado por exames de imagem.

4. Cistos e tumores odontogênicos

Todo dente incluso permanece envolto por um saco folicular (folículo pericoronário). Esse tecido tem o potencial de originar lesões patológicas, incluindo cistos dentígeros, ceratocistos odontogênicos e, mais raramente, tumores como o ameloblastoma.

Embora a incidência dessas lesões seja relativamente baixa (estimada em torno de 12% para dentes inclusos sem comunicação com o meio bucal), elas podem crescer silenciosamente, destruindo osso e deslocando dentes vizinhos. Por isso, o acompanhamento radiográfico periódico de sisos inclusos é obrigatório.

5. Doença periodontal no segundo molar

A presença de um siso — mesmo quando assintomático — está associada ao desenvolvimento de bolsas periodontais profundas na face distal do segundo molar. A revisão Cochrane sobre o tema sugere que a presença de terceiros molares impactados assintomáticos pode estar associada a risco aumentado de doença periodontal no segundo molar a longo prazo, medida por profundidade de sondagem distal superior a 4mm.

Dados compilados na literatura indicam que aproximadamente 25% dos pacientes com sisos retidos e assintomáticos já apresentam sinais de doença periodontal ao redor desses dentes.

A boa notícia: a evidência mostra que a extração do terceiro molar, quando há doença periodontal associada, melhora a saúde periodontal na face distal do segundo molar.

A mensagem é clara

Nenhum desses cinco problemas costuma dar aviso claro no início. Quando a dor aparece, o dano geralmente já avançou. O acompanhamento periódico com exames de imagem é a forma mais inteligente de proteger sua saúde bucal e evitar complicações que podem custar dentes que estavam perfeitamente saudáveis.

 
Referências
  1. Peñarrocha-Diago M, et al. Indications of the extraction of symptomatic impacted third molars: A systematic review. J Clin Exp Dent. 2021;13(3):e278-e286.
  2. Expert consensus on the management of third molar health. Int J Oral Sci. 2025.
  3. Cochrane Review: Surgical removal versus retention for the management of asymptomatic impacted wisdom teeth.
  4. Qu HL, et al. Effect of asymptomatic visible third molars on periodontal health of adjacent second molars. J Oral Maxillofac Surg. 2017;75:2048-57.
  5. Li ZB, et al. Influence of non-impacted third molars on pathologies of adjacent second molars. J Periodontol. 2017;88:450-6.

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