Pular para o conteúdo principal

Dra Celine Odontologia

Uma janela de oportunidade que não espera

Existe um período na vida da criança — aproximadamente entre os 6 e os 12 anos — em que os ossos da face ainda estão em crescimento ativo e a sutura palatina mediana, a “junção” entre as duas metades do palato, ainda não está completamente fundida.

É justamente nessa fase que a ortopedia funcional dos maxilares pode alcançar resultados importantes, aproveitando o próprio crescimento da criança para guiar o desenvolvimento ósseo, expandir o palato, corrigir assimetrias e preparar o caminho para uma dentição permanente mais saudável.

A intervenção precoce não significa adiantar o tratamento. Significa realizar o tratamento certo, no momento certo.

Depois que o crescimento se completa e determinadas estruturas amadurecem, algumas correções podem se tornar mais complexas e, em casos específicos, exigir abordagens cirúrgicas.


O que a ciência diz sobre o tratamento ortodôntico precoce?

As evidências científicas reforçam a importância de identificar determinadas alterações ortodônticas ainda durante o crescimento.

Um consenso de especialistas publicado no International Journal of Oral Science, em 2024, aponta que a intervenção precoce em maloclusões selecionadas pode contribuir para diminuir a incidência de problemas oclusais na dentição permanente, favorecendo aspectos funcionais e psicossociais durante o desenvolvimento.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em Medicina, em 2025, também identificou benefícios esqueléticos e dentários do tratamento ortodôntico realizado durante a dentição mista para determinadas condições.

Mas quais problemas podem se beneficiar de uma avaliação e intervenção ainda na infância?


Mordida cruzada posterior

A mordida cruzada posterior é uma das condições que podem apresentar indicação clara de tratamento precoce.

Quando não corrigida, pode estar associada ao desvio funcional da mandíbula e ao desenvolvimento de assimetrias faciais.

Estudos também apontam alterações na posição dos côndilos em casos de mordida cruzada acompanhada de desvio mandibular. Em pacientes selecionados, a expansão maxilar durante o crescimento pode contribuir para restabelecer uma relação mais equilibrada.


Classe II — dentes superiores muito para frente

Crianças com sobressaliência excessiva, conhecida como overjet aumentado, apresentam maior exposição dos dentes anteriores e, consequentemente, maior risco de trauma dental.

Uma meta-análise demonstrou taxas de trauma incisal entre aproximadamente 19% e 20% nos grupos submetidos ao tratamento precoce, comparadas a cerca de 29% a 30% nos grupos sem tratamento.

Durante a fase de crescimento, aparelhos funcionais, como Twin Block e Herbst, podem ser indicados em determinados casos para auxiliar na correção da relação entre as arcadas e no posicionamento dos dentes.


Classe III — mandíbula avançada

Nos casos de Classe III, existe uma relação desfavorável entre a maxila e a mandíbula, que pode se tornar mais evidente conforme a criança cresce.

Revisões sistemáticas demonstram que determinadas abordagens realizadas durante o crescimento, como a combinação da máscara facial de tração reversa com expansão rápida da maxila, podem produzir alterações esqueléticas importantes em pacientes selecionados.

A possibilidade de aproveitar o período de crescimento é justamente um dos motivos pelos quais a avaliação ortodôntica durante a infância é tão importante.


Mordida aberta anterior

A mordida aberta anterior pode estar relacionada a hábitos orais, como sucção de dedo, uso prolongado de chupeta e alterações na postura da língua.

Uma revisão sistemática publicada no American Journal of Orthodontics and Dentofacial Orthopedics demonstrou resultados positivos com diferentes abordagens interceptivas, incluindo esporões colados e grades palatinas fixas ou removíveis.

Mais do que observar a posição dos dentes, é fundamental investigar o que está provocando a alteração.


Hábitos orais: pequenos costumes, grandes consequências

Sucção de dedo, uso prolongado de chupeta, respiração bucal crônica e deglutição atípica podem parecer apenas comportamentos comuns da infância, mas podem exercer forças constantes sobre estruturas que ainda estão em desenvolvimento.

A sucção digital e o uso prolongado de chupeta estão associados ao desenvolvimento de mordida aberta anterior e mordida cruzada posterior.

Alterações respiratórias e funcionais também podem interferir na postura da língua e da mandíbula e estar relacionadas ao desenvolvimento das arcadas dentárias.

Por isso, identificar esses fatores durante a infância permite investigar suas causas e, quando necessário, intervir antes que determinadas alterações se consolidem.


O que pode acontecer quando o momento ideal passa?

Quando alterações ortopédicas e ortodônticas que possuem indicação de tratamento durante o crescimento não são corrigidas no momento adequado, o tratamento futuro pode se tornar mais complexo.

Assimetrias faciais
Algumas alterações podem se consolidar conforme o crescimento avança, tornando sua correção mais difícil posteriormente.

Tratamentos mais complexos
Discrepâncias esqueléticas que poderiam ser abordadas durante o crescimento podem, em casos mais severos, exigir tratamentos mais extensos na vida adulta.

Posição dos dentes permanentes
Alterações no desenvolvimento das arcadas podem influenciar o espaço disponível e a posição de erupção dos dentes permanentes.

Função
Mastigação, respiração, deglutição e fala também podem estar envolvidas em determinados quadros ortodônticos.

Autoestima
Alterações dentofaciais também podem interferir na percepção da própria imagem durante uma fase importante do desenvolvimento emocional e social.


Nem toda criança precisa de tratamento. Mas toda criança merece uma avaliação.

A avaliação ortodôntica precoce não significa que toda criança precisará usar aparelho imediatamente.

Na verdade, muitas crianças avaliadas durante essa fase recebem apenas uma orientação de acompanhamento — e isso é perfeitamente normal.

O verdadeiro valor da avaliação está em identificar quem pode se beneficiar de uma intervenção durante o crescimento e quem pode aguardar com segurança.

Na clínica da Dra. Celine, acreditamos que informação e acompanhamento também fazem parte do cuidado.

Quando existe indicação, intervimos no momento adequado. Quando não existe, acompanhamos o desenvolvimento com tranquilidade.

Agende uma avaliação e acompanhe de perto cada fase do desenvolvimento do sorriso do seu filho.


Referências científicas
  1. Zhou C, et al. Expert consensus on pediatric orthodontic therapies of malocclusions in children. International Journal of Oral Science. 2024;16:32.
  2. Does Early Orthodontic Treatment in Mixed Dentition Improve Long-Term Outcomes? A Systematic Review and Meta-Analysis. Medicina. 2025;61(10):1854.
  3. Khan MM, et al. Effectiveness of early orthodontic intervention for Class II and Class III malocclusions in adolescents: A meta-analysis. J Popul Ther Clin Pharmacol. 2025;32(1):1137–1145.
  4. Thiruvenkatachari B, et al. Early orthodontic treatment for Class II malocclusion reduces the chance of incisal trauma: Results of a Cochrane systematic review. Am J Orthod Dentofacial Orthop. 2015;148:47–59.
  5. Management of posterior crossbite with maxillary expansion: A narrative review of contemporary evidence. 2025.
  6. Meng M, et al. Effects of bonded spurs, fixed and removable palatal crib in the early treatment of anterior open bite: A systematic review and meta-analysis. Am J Orthod Dentofacial Orthop. 2023;163:298–310.
  7. Alsawaf DH, et al. The effectiveness of the early orthodontic correction of functional unilateral posterior crossbite in the mixed dentition period: A systematic review and meta-analysis. Progress in Orthodontics. 2022;23:5.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *